sábado, 10 de março de 2012

Ser, mundo, evento.


 Fazer do futuro um recuperação do passado, uma vitória após uma seqüência de batalhas, “de derrota em derrota ate’ a vitória final”, como disse Mao, e’ possível somente na medida que não apenas vemos, mas também desejemos esta vitória.
Nesta disputa, o passado não e’ uma saudade melancólica, um acumulo de acontecimentos vazios e objetos fetiches, mas um receptáculo de projetos desperdiçados, onde presentes nas suas ruínas e partes desconexas podem estar as esperanças e os sonhos de uma emancipação radical da humanidade.
Mas onde estarão as verdadeiras, legitimas peças do patrimônio histórico coletivo, a serem usadas e transformadas?
Quais as formas, em suas perenidades, na sua pulsão de morte, na sua incrustação no solo original, quais as formas a serem mixadas, na carnavalização revolucionária, em uma imposição  de um novo mundo?
Um novo mundo que desvele as suas aparências particulares e neste intervalo vazio permita gerar novos nomes e lugares, ocupar falas  que “ trarão `a vida o mundo desconhecido que esta’ a nossa espera porque esperamos por ele”.
“ Mas e se o futuro ao qual se deve ser fiel for o futuro do próprio passado, em outras palavras, o potencial emancipato'rio que não se realizou por causa do fracasso das tentativas passadas  e, por esta razão, continua a nos perseguir?” diz Zizek, e o excesso do entusiasmo revolucionário e’ portanto, o de um futuro do/ no passado, “um evento espectral que aguarda sua encarnação apropriada.”
Neste ponto, Slavov Zizek recorre a elaboração de Deleuze sobre a repetição como a forma do surgimento do novo, ou como Alain Badiou, quando desenvolve o conceito de ressurreição, como uma destinação subjetiva de um evento, uma reativação de um acontecimento cujos traços foram obliterados ou apagados, onde “ todo sujeito fiel pode reincorporar `a sua presença evental um fragmento da verdade, que foi enterrada por baixo da barra da ocultação” . 
E’ esta reincorporacao que ele chama de ressurreição.
Recolher, separar, deixar valer uma memória que não se submeta `as ordens imperiosas do arquivo e da história oficial, recuperar uma memória ancorada nas falas abafadas, nas fluidas transmissões orais, dos incessantes fazeres e cantos, uma memória de muitas festas e paixões, onde os pequenos acontecimentos se movimentam nos estreitos vazios da dura cidade.
Mas como escolher?
Haverão traços que ultrapassem, hoje escondidos, antes soterrados,  a essência dos lugares, a origem e começos desta segunda natureza que nos abriga e nos engana?
Que nos ama e nos entristece.

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