Ulisses e Aquiles
Glória e vida
É passado o tempo de exílio, do ódio e dos sofrimentos mais atrozes que enfrentamos. Se for do agrado dos deuses, é chegado o retorno à vida! Voguemos enfim em direção a ela... —
Homero, Odisseia
Ulisses, depois de 20 anos, dez na guerra de Troia e dez em viagens e aventuras, retorna à sua casa, a "uma vida de um povo em harmonia", e não é reconhecido por sua esposa, Penélope.
Sua memória intacta, diante dos muitos encantos e armadilhas, tentações sexuais e de confortos materiais, opta pelo retorno às suas origens, aceita a condição humana da mortalidade, é chamado a confirmar a sua identidade. Assim, confirma a Penélope que a cama partilhada pelo casal foi escavada, por ele, em um tronco de oliveira, mantendo as raízes fincadas no solo, assentada profundamente na terra mãe.
Aquiles, na sua cólera, não pretende voltar à casa da mãe, a deusa Tétis, mas se propõe a morrer em combate, superar o efêmero e ser lembrado em uma glória eterna. A poesia, a epopeia, contada ou escrita, manterá por séculos vivas as suas proezas desmedidas, e as suas lutas e coragem sobreviverão, lembradas e admiradas no futuro.
Esta oposição, entre a vida sedentária, com amigos e família, no lugar sagrado, na natureza ancestral alterada pelo artifício humano, e a vida consumida ao máximo, na juventude, nos prazeres e entretenimentos, guerras e competições, parece se reproduzir no mundo contemporâneo.
Os nômades atuais, desenraizados, não pretendem mais voltar à vida banal e doméstica: movem-se em deslocamentos contínuos de corpo e espírito, arriscando experiências aceleradas pelo tempo e pelo espaço global. Os assentados, ao contrário, refazem identidades que suportem as perdas sofridas, inventam patrimônios e lembranças, retêm situações felizes, cuidam assim de suas paixões tristes.
Sem um gosto universal, sem pautas que unam esforços, os viajantes contentam-se em visitar lugares genéricos e sem sentido próprio — opostos aos mundos locais, instalados em cidades e condomínios onde dívidas impagáveis sustentam sonhos apagados.
Mas os nomes já não se ajustam a quem os carrega, e essa é a medida do nosso desencanto: os atuais Ulisses, desencantados, desmemoriados, abandonam a oliveira pela suíte de hotel e imaginam imortalidades apaixonadas em aeroportos; os jovens Aquiles, derrotados sem batalha, guardam escudos e armaduras no armário e escravizam suas glórias e desejos a empreendimentos comerciais e casas próprias.
Ulisses migrou para a estrada, Aquiles recolheu-se ao lar — os arquétipos trocaram de lugar, e já não sabemos mais quem é quem.
Sem mais heróis, nos corredores do supermercado, fantasmas e zumbis circulam carrinhos de compras, simulando suas presenças incômodas entre corpos jovens e sarados, corpos idosos e cansados, aguardam seus momentos de júbilo e retorno.
Como identificá-los, fantasmas iguais a tantos outros, zumbis como normais pessoas, a escolher frutas e legumes, acumulando alimentos, objetos de sobrevivência de gosto saudável. Orgânicos, naturais, veganos?
Cuidadosos, cuidamos em lhes enviar longos olhares, tentando observar, nos fantasmas, algum gesto ou movimento que denuncie as suas condições, as suas perdas. Eles, querendo reter um pouco do mundo mortal, emitem despedidas, melancolias e angústias — e, em pouco tempo, se desmancham sem mais restos ou ruínas no chão, sem mais sobras ou lembranças.
Zumbis são insatisfeitos, esperam em armadilha, tecem uma trama de vinganças, e, quando esquecidos, afiam facas e unhas, escolhem, nas frias prateleiras, corpos mortos, carnes, frangos, sangues e gorduras escorrendo de bandejas.
No mundo comum da solidão e do consumo, sem mais glória, sem mais memórias e vitórias, Ulisses e Aquiles, zumbis e fantasmas, são embalados, no final, após o caixa, em sacolas de plástico e se refugiam nos porta-malas dos carros.
Kleber Frizzera
agosto 2026