quarta-feira, 24 de julho de 2013

Doce odor


Acabado o prazo de validade, no limite último da finitude material e humana, nas nossas cidades e vilas, edifícios e lugares tentam se manter vivos, escorados, ameaçados pelos desejos de novos projetos, fragilizados diante dos inexoráveis pesos e forças do destino.
Suportaremos os seus tristes fins, seus lentos desgastes e desmoronamentos, verteremos furtivas lágrimas sobre suas ruínas, e encerrados os atos expiatórios, perderemos definitivamente suas memórias e passados?
Deixemos-nos  levar, como o rio que nunca mais retorna, de água e fluxo, ao mesmo ponto e margem, que nunca mais passara’ sob os arcos da mesma ponte de pedra, ou quando retesado o braço, esticaremos o arco a tempo, lançada a flecha contra os fragmentos entulhados, ocupados ao denso olhar.
Circulamos, então, aliviados, com prazeres melancólicos, nas suas ruas e becos históricos, aspirando, casa após casa, o doce odor das trepadeiras e glicínias, dos acontecimentos e da salvação, debruçadas seus galhos e espinhos no profundo recorte do tempo.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A gloria de Aquiles


Façamos entao a determinada e inevitável guerra.
Levantemos com  fortes bracos os escudos das resistências veladas, gravados a cinzel os momentos familiares, lembranças abandonadas. 
Um viagem sem volta para uns, uma longa e perigosa jornada para outros, uma jornada de retorno ou de permanencia.
Navegar na direção da nova cidade, riscados no sitio seus limites, os recortes das muralhas e do amor.
E do império, obrigados pelo destino, necessidade e pelo mito, expandimos seus limites, explodimos suas fronteiras, deixados submissos os estrangeiros e os irmaos, esmagados suas resistências e desejos de harmonia.

Se fico combatendo aqui em torno da cidade de Tróia nao terei mais volta; em compensação, uma gloria imperecível me espera. Se volto, ao contrario, para a terra da minha pátria, nao terei mais gloria; uma longa vida, em compensação,  esta reservada para mim e a morte que tudo termina nao conseguira me atingir por muito tempo.
Ilíada, IX, 411-416

sábado, 1 de junho de 2013

quinta-feira, 7 de março de 2013

Acontecimento


O q esqueci, tão rápido q já nem sei o motivo e o gesto, se original ou repetido?
Acho que esqueci o milagre que do abismo irrompe ao horizonte,`a luz, quando a ação inesperada, política, impossível, rompe a casca do ovo.
Me esqueci da perda.

No evento, onde se encandeiam os elementos do acontecimento, brilha o sentido.
Hannah Arendt, In Diario filosófico

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A cólera de Aquiles


Cante, deusa, da ira, do filho de Peleu, Aquiles,
a amaldiçoada ira, que trouxe dor a milhares dos aqueus.
Ilíada, Homero,canto 1



Mas o que movimenta, agita e destrói esta raiva, uma cólera de origem, que do infinito presente já e’ feita e dita maldita, que ao primeiro movimento divide ao meio a alma e alarma o espirito, sangrados diante do sofrimento e da dor, diante da perda e da mortalidade, na ambígua duvida, determinada de começo, na dura escolha entre a a gloria imortal na batalha e a banal e insatisfatória satisfação na labuta cotidiana?  
E a fala, qual a linguagem que sustenta o dia e depois o outro, consegue e ultrapassa o momento e a parte em cada instante, que faz descrever/ reviver a luta infinita, o embate sem tréguas onde deuses e homens negociaram, em combates e desejos, suas paixões e destinos imortais?
Levantemos nossas taças em saudação, expomos nossos assombros, refletimos contra os olhos, os brilhos, cristais e homenagens, para erguer, de pé, este brinde 
....
Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.

( Mallarme’)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O esquecimento. pó e leveza.



Há um exercício de esquecimento permanente na maneira que as coisas vão se acabando lentamente, se desmanchando ponto a ponto nas cidades, em Vitória, deixando em pó e areia os objetos, as casas e os acontecimentos, que ao menor sopro do vento se dissolvem no ar e na maresia junto ao canal do porto. 
Seria insuportável manter vivo cada registro, acumulando-se em camadas, pousando suas marcas, a cada dia, a cada hora, sobre as fachadas e pisos, grudando-se à cada instante e outro e mais, imprimindo sem fim, nas pedras superpostas, tanta informação, que o risco do corte inicial desaparece soterrado sob esta massa de dados pegajosa e macia que ao apertar dos dedos deixa sujar as mãos de uma lama escura sem sentido e sem definição.
Bom as coisas que viram pó e leveza. Levemente desgrudam-se de seus suportes e volteiam pelos ares não se juntando a nada, não se agrupando em novas formas, deixando-se levar desgarradas até que nem o brilho do sol consiga mais captar as suas desaparições definitivas no final da tarde, quando as sombras ombreiam contra as montanhas e os sobrados da velha cidade.
2002/2013

POLÍTICA E MEMÓRIA


"Mamãe, as outras cidades têm uma lua tão grande como a nossa?" 
século  III

Isto é o político para o Ateniense: a política é fazer como se nada tivesse acontecido. Como se nada antes se tivesse produzido: nem o conflito, nem o assassinato, nem o ódio. O político e’ a promoção do esquecimento (lethe) como o fundamento da vida em cidade, tirando do ódio e da vingança o seu caráter eterno. 
Na impossibilidade de esquecer verdadeiramente, é preciso esquecer pelas palavras para impedir a memória dos males. O sujeito não se priva da memória, ele se proíbe lembrar o que é para esquecer. Para que haja laço possível, vínculo possível, vivência-com, a memória e’ proibida, nao deixada esquecida, mas deixada na espera, na guarda, no arquivo.
E aí está a delicadeza de uma concepção do social: o laço tênue que depende de uma forma de esquecimento.
Representado mais do que efetivamente consumado.