quinta-feira, 25 de julho de 2019

Hora de morrer

Todos estes momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. 
Hora de morrer.
Roy, em Blade Runner

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Então


Então diria, quem sabe, talvez, um dia, ontem, amanhã, 
e se viraria lentamente, deixando no ar um cheiro doce de perfume e suor.

O caminhão roncava se esforçando para subir a ingreme ladeira revestida de paralelepípedos. Aos seus lados, pessoas, embrulhos e largas bolsas, carregavam a casa as poucas compras de armazém e açougue. 
Crianças gritavam. 
Mulheres nas janelas, homens nas portas dos bares. 
Tardinha.

O olhar se desfazia em limites das montanhas, no fluido horizonte das superpostas casas e serras, muitos cinzas superpostos até o azul de inverno, retido no interior do casaco de lã. 

Sem recursos além, sobravam o jogo de bicho, a contagem, os favores de outrem.

Pernas e o corpo doíam, mantidos na desagradável postura, sem ganhos.



Kleber
Julho 2019

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Acertos e estranhamentos



 Onde o novo? 
Na cidade, de luzes e riscos prenhes de róseo futuro,
protegidas suas portas e muralhas pelo arcanjo, Miguel, 
ou nos intervalos, entre partes e frestas, onde ronda o vento, silva os ares e ocupam os gentios?
No embate público, macios interiores, tudo se acumula, tudo se multiplica em faltas e afetos,
E juntos, alinhados `as afecções coletivas, 
desejos escapam dos espectros,
exploram falas e gestos, inventam lados, 
que se alteram, se dobram rapidamente,
em coletivos e turbas desgarradas, em ordens ou dispersos escuros olhares cruzando ódio 
em contínua disputa de longos campos e montanhas.

Nada há nada a orientar, nem o tempo, nem o norte, nem a certa linha ou a reta direção, paralisados, 
determinada somente a vontade em esvair novidades e prazeres na noite perversa.
Que sobra?
Reflexos, olhares, desvios, e o gesto incompleto.


Kleber
Lisboa 2017
Vitória 2019


domingo, 19 de maio de 2019

Encanto




Sustento a vontade, um jeito meio estranho, quando devolvo a taça perdida ao seu canto, e na outra porca, parafuso,
que mal sustenta as pernas da mesa de sal, desfaço o trabalho, o esforço de esquecimento, desmaiada sobre o chão.


Que suporte equilibra o perdido sonho, substitui a desejosa aparição, que da luz empírea, derrama a graça, em réstias desmanchadas,
Em gotas derramadas,
E em ligeiros grãos, desarticula o saco que tudo suporta e tudo e’?

Um primeiro terceto abriga a ilusão,
Da religião, da imaginação, desfeitas
Pela dura e seca ciência.

O segundo, sem fe’, escava potes, amassadas panelas, raspa o duro quintal,
Espera sentado, esperança,
Encantamento.


domingo, 12 de maio de 2019

Como



Como pudera pensar que fosse ainda possível, talvez um milagre, talvez um extraordinário, que em algum tempo único, um excepcional evento fizesse brilhar a rua, reluzir a cidade, iluminar toda a região, no início da noite, quando deixadas findas as longas sombras nos montes.

Mas esperara em vão, insuficiente o seu desejo e a minha esperança para romper a dura casca, deslizar no estreito caminho, e fazer vazar, nem que por poucos instantes, o cheiro doce, deixado pelos ventos largos, a se confundir com o perfume da pitangueira, sozinha, sobriamente instalada junto ao fundo do quintal. 

Sobrou-me uma pequena parte, um trecho do riscado, um metro do estampado, deslocados em minhas mãos, deslizando, a seda e o fresco veludo azul sobre o escorregadio piso de granito. 

Restou-me uma palavra esquiva, movimentando sem oportunidade contra a luz e a agitação, guardou-me apenas mais uma tentativa, frustrada, como.

terça-feira, 16 de abril de 2019

segunda-feira



Algo rompe a fresta, o fraco e frígido patamar da segunda feira,
desloca em vazios em pés quebrados, a mesa torta, empresta
a cada canto um sentido.

Diria como manter em palavras escritas a doce dita, encurralada ao final em tardes quentes,
os sois decaídos ao canto do mar.

O amplexo me informa a nova vida em suspensão.



sexta-feira, 12 de abril de 2019

cidade de pedra



Cidade de pedra
Que nos resta, atual a sina da solidão e esvaziada a solidariedade, que fazer de nossos confortos e desilusões?
Que nos resta das mulheres infelizes?
Infinitos abandonos.