domingo, 9 de agosto de 2015

Dourados camaleões



De parte em parte, estar por ai’, caminhando,
Suspenso, da vida em listas.

A vida e a dor, em do’, de mim se afasta, 
mas só depois;
Que,
As folhas, amarelas,
em montes, se esparramam pelos chãos.

De dourados camelões e (doces)suspiros refiz um trecho de amor e perda.
E escuto, ponto a ponto, por vias tortas,
memo'rias vão ficar.




sábado, 13 de junho de 2015

Habitar

Usar- ... que tanto pode querer dizer servir-se de como ter o ha'bito de- significa sempre oscilar entre uma pátria e o exílio: habitar.
Agamben

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Texto dois


Ser, mundo, evento.
em seus olhos, vejo minha perda escrita
racine
Fazer do futuro uma recuperação do passado, uma vitória após uma seqüência de batalhas, “de derrota em derrota ate’ a vitória final”, como disse Mao, e’ possível somente na medida que não apenas vemos, mas também desejemos esta vitória.
Nesta disputa, o passado não e’ uma saudade melancólica, um acu'mulo de acontecimentos vazios e objetos fetiches, mas um receptáculo de projetos desperdiçados, onde presentes nas suas ruínas e partes desconexas podem estar as esperanças e os sonhos de uma emancipação radical da humanidade.
Mas onde estarão as verdadeiras, legitimas peças do patrimônio histórico coletivo, a serem usadas e transformadas?
Quais as formas, em suas perenidades, na sua pulsão de morte, na sua incrustação no solo original, quais as formas a serem mixadas, na carnavalização revolucionária, em uma imposição  de um novo mundo?
Um novo mundo que desvele as suas aparências particulares e neste intervalo vazio permita gerar novos nomes e lugares, ocupar falas  que “ trarão `a vida o mundo desconhecido que esta’ a nossa espera porque esperamos por ele
Mas e se o futuro ao qual se deve ser fiel for o futuro do próprio passado, em outras palavras, o potencial emancipatório que não se realizou por causa do fracasso das tentativas passadas  e, por esta razão, continua a nos perseguir?” diz Zizek, e o excesso do entusiasmo revolucionário e’ portanto, o de um futuro do/ no passado, “um evento espectral que aguarda sua encarnação apropriada.”
Neste ponto, Slavov Zizek recorre `a elaboração de Deleuze sobre a repetição como a forma do surgimento do novo, ou como Alain Badiou, quando desenvolve o conceito de ressurreição, como uma destinação subjetiva de um evento, uma reativação de um acontecimento cujos traços foram obliterados ou apagados, onde “ todo sujeito fiel pode reincorporar `a sua presença evantal um fragmento da verdade, que foi enterrada por baixo da barra da ocultação” . E’ esta reincorporação que ele chama de ressurreição.
Recolher, separar, deixar valer uma memória que não se submeta `as ordens imperiosas do arquivo e da história oficial, recuperar uma memória ancorada nas falas abafadas, nas fluidas transmissões orais, dos incessantes fazeres e cantos, uma memória de muitas festas e paixões, onde os pequenos acontecimentos se movimentam nos estreitos vazios da dura cidade.
Mas como escolher?
Haverão traços que ultrapassem, hoje escondidos, antes soterrados,  a essência dos lugares, a origem e começos desta segunda natureza que nos abriga e nos engana?
Que nos ama e nos entristece.
maio.2015

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Davi

E como luz da manhã, ao levantar do sol,
Numa manhã sem nuvens,
Desse brilho, depois da chuva,
A relva brota da terra.

Davi
Sm 23. 1- 4

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Como


Como pudera pensar que fosse ainda possível, talvez um milagre, talvez um extraordinário, que em algum tempo único, um excepcional evento fizesse brilhar a rua, reluzir a cidade, iluminar toda a região, no inicio da noite, quando deixadas  findas as longas sombras nos montes. 

Mas esperara em vão, insuficiente o seu desejo e a minha esperança para romper a dura casca, deslizar no estreito caminho, e fazer vazar, nem que por poucos instantes, o cheiro doce, deixado pelos ventos largos, se confundir com o perfume da pitangueira, sozinha, sobriamente instalada junto ao fundo do quintal.  

Sobrou-me uma pequena parte, um trecho do riscado, um metro do estampado, deslocados em minhas mãos, deslizando, a seda e o fresco veludo azul sobre o escorregadio piso de granito.  

Restou-me uma palavra esquiva, movimentando sem oportunidade contra a luz e a agitação, guardou-me apenas mais uma tentativa, frustrada.

sábado, 30 de agosto de 2014

Havia

Naquele tempo não se distinguiam estações, ...
E mesmo os trovões, os relâmpagos, a chuva, o gelo e o granizo não seguiam o seu curso.
Havia muitos pássaros e caça, mas não havia quem os caçasse.
Havia o que chamamos demônios, mas não podiam opor-se a nada.
Naquele tempo, a felicidade existia, mas não havia ninguém para distingui-la.

in Historia e memoria, Jacques le Goff

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A noite

E `as vezes retorna
no sossego parado de um dia a lembrança
dessa vida alheada na luz espantosa.

cesare pavese