quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Estrelas


Ha’ momentos em que os homens sao senhores do seu destino.
 O erro, meu caro Brutus, nao esta’ em nossas estrelas , mas em no’s mesmos.
Julio Cesar. 
Shakespeare

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Desarmado


“Por que ruas tão largas?
Por que ruas tão retas?
Meus passo torto
foi regulado pelos becos tortos
de onde veio,...
Aqui tudo é exposto
evidente
cintilante. Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado. “

Carlos Drummond de Andrade
In Esquecer para lembrar.






postei esta poesia em 8 de marco de 2011

Guardados

Algum tempo, as ruinas.
Que exista o que existe, em partes, fragmentos.
As totalidades se esvaem nestes inúmeros riscos e
materias pesadas,
onde por entre as suas fraturas e desvios se movem
os ventos,
lentas aragens e a graciosa curva do mar.

domingo, 2 de outubro de 2011

Tentação 1



A tentação identitaria ou “a desrazao identitaria” como diz Jacques Le Goff, consiste em um deslocamento coletivo que conduz da flexibilidade tolerante, de uma apropriada manutenção de si na original promessa, para uma rigidez inflexível de carater local, cultural ou de classe.
O segundo movimento desta tentação e’ o confronto da identidade inventada com a de uma outra, estrangeira, percebida como uma ameaça, como um perigo para a identidade própria, tanto a de no’s como a do eu, e assim, passamos a temer e a nao aceitar outros modos de levar a vida, de manifestar o conhecimento e a cultura, e rejeitar maneiras diferentes das nossas falas.

A terceira atitude e’ fruto da herança da violência fundadora, pois o que celebramos como eventos originais sao essencialmente atos violentos, legitimados posteriormente, no limite, por sua própria antiguidade, ou pela forca da lei, se manifestando como uma glo’ria para uns, vencedores, mas como execração dos outros, de todos os vencidos.

domingo, 25 de setembro de 2011

Memória e esquecimento.



Aqui tudo é exposto
Evidente
cintilante. Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado. “
Carlos Drummond de Andrade

Na obra de Marcel Proust a poética do esquecimento e’ ao mesmo tempo uma poética da lembrança, uma poética de lembrar surgida do fundo de esquecer. Assim  sempre e’ preciso uma “ dosagem exata de memória e esquecimento” para que a pessoa tenha o dom da lembrança, para que se arme, se estruture uma memória poética.
Mas, “ Só quando o esquecimento perdurou um tempo suficiente e se tornou bastante profundo, a memória involuntária pode agir e trazer  fundo desse abismo do esquecimento, sem o controle de parte da razão e da forca da vontade,…(re) fazendo um processo que se origina “ Da memória banal voluntária pelo esquecimento profundo e duradouro ate a memória poética involuntária…, se transformando como o novo e para a constituição de “ uma faculdade que serve muito bem `a vida.”
A memória poética,“ Ela cura dos medos do tempo e da morte e traz felicidade aos seres humanos que a ela se confiam.”
Seremos assim capazes de nos reconciliar, com o todo, com o não dito, com o perdido paraíso, onde segundo Dante :
A partir de agora minha visão era ainda maior
Do que nossa linguagem que não estava `a altura,
E a memória cede lugar ao inaudito.

Onde abandonado o esquecimento, abandonadas a escravidão e a dor, possamos nos reencontrar com a aliança e com o acordo original com a divindade:
Será, pois, que, quando o SENHOR teu Deus te tiver dado repouso de todos os teus inimigos em redor, na terra que o SENHOR teu Deus te dá por herança, para possuí-la, ......; não te esqueças.
Não esqueças o Senhor que te tirou do Egito, da escravidão.
DEUT 25, 19

Neste momento, possamos cumprir dever maior da memória, de ao lembrar fazer justiça, testemunhar para o que foram calados, cujas historias foram esquecidas, enterradas as suas ruínas e eventos, pois segundo Aristóteles:
O dever da memória e da herança e’ o dever de fazer justiça, pela lembrança, a um outro que não a si.”
Somos devedores aos que nos precederam, uma divida que não se limita a guarda e preservação dos seus rastros e partes sobreviventes, do duro material ou ao leve escrito, mas a um sentimento de dever aos outros, de submeter a herança a um inventario, com uma prioridade moral `as vitimas, outras que não foram no’s.

Na Lisboa de Fernando Pessoa:
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

e na triste mas esperançosa poesia de Cesário Verde:
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Na matéria das pedras


Nas cidades, há uma convivência de duas séries, do presente e do passado, onde as  coisas habitam simultaneamente as duas. 
Eduardo Gruner, em uma leitura de Walter Benjamin, diz: La arquitectura es el arte que más intensas y dramáticamente conserva la memória arcaica de las necessidades primarias de la espécie”. Para ele, a arquitetura é o lugar onde se desnuda a contradição, onde se expõem os conflitos entre os desejos  arcaicos da humanidade, o desejo de reconciliação entre a natureza e o mundo e a realidade da alienação capitalista, do fetichismo da mercadoria, onde “ da impossibilidade do cumprimento cabal desta promessa de reconciliação”. 
Na arquitetura e na cidade, em ruínas superpostas, não basta a presença de uma memória cri'tica, mas é necessário um choque, “um curto circuito com a infelicidade do presente”, para a constituição da memória antecipada do futuro redimido. E' preciso uma memória que desperte a nostalgia do que nunca existiu e a projete em direção a uma redenção futura através de uma mimesis transubjetiva.
Em algum momento, os objetos arquitetônicos participaram da feitura de um tempo, abrigaram eventos, práticas, prazeres e dores, imprimiram em seus muros valores e significados de uma época e de uma cultura. O que continua, o que resta, tentando informar um sentido cósmico à natureza e à phisis, à cultura e arte, o que resta do que se esvai e se abre, se esconde ao compartilhamento, à tradução, à tradição, estão suportados em registros construídos, para serem desvelados, em sua aparência quotidiana, nas cidades, nas suas sombras e luzes, aos futuros ocupantes. 
Ali, impressos na matéria das pedras e na ordem da formas, retém-se, para a interpretação e potencia, acumuladas por décadas e séculos, uma massa de informação, onde a superposição histórica foi as misturando, contíguas e superpostas, que ao primeiro olhar, curioso de possuí-las e organizá-las se segue imediatamente uma sensação de desconforto e desanimo. 
Como se não fosse possível desvencilhar os fios e tramas que as compuseram, ou, que quando possível, apenas se apresentasse à contemplação e`a leitura um texto ininteligível que nenhum código, por mais complexo ou universal, fosse capaz de recuperar parte ou a totalidade de seus sentidos originais. 



domingo, 8 de maio de 2011

Esplendor na relva

A luz que brilhava tão intensamente
Foi agora arrancada dos meus olhos,
E embora nada possa devolver os momentos
Do esplendor na relva e de glória das flores
Não sofreremos, melhor,
Encontraremos força no que ficou para trás.

Wordsworth